Os Pássaros Também Escrevem

Todos os anos o mundo das aves reunia-se para lançar livros.
O pombo odiava a data, mas pela comunidade, lá ia. Sem incomodar, saltitava pelo salão para perto das rolas, uma ainda olhou para ele, enchendo-lhe o ego.
O resto ignorava-o por ser quem era.

Ele é um rato com asas! Ouviu a sussurrar.
“Ratos com asas são os morcegos” intrometeu uma gralha que se aproximou a galar a porcaria no chão.
“Sozinho?” perguntou de penas desordenadas ao pombo.
“É como vê” respondeu.
“Trata-me por tu. Não somos pessoas!” crocitou pomposamente. “Bichos pedantes…” E apontou para a sala.
O pombo suspirou um coo
“Já os li a todos e não haverias de gostar.

O papagaio é um plagiador; o pavão escreve sobre moda; outros escrevem sobre sexo! Sexo entre pássaros! Vê lá tu, caw!” cuspiu a gralha.

“E onde andam as pegas?” esganiçou-se até se engasgar. “Enfim, sabias que não é só o mocho a escrever coisas inteligentes? O pássaro madrugador apanha a minhoca fui eu que escrevi.”
O pombo ficou a pensar naquilo até que ditou:
“Não é muito inteligente. Há pássaros nocturnos; pássaros que não comem minhocas, mas que comem carne ou grão ou lixo; minhocas que fazem mal. E a minhoca que madruga é comida pelo pássaro? É algum ditado para meter medo às minhoquinhas para comerem a sopa? Fosse minhoca queria acordar tarde, digo.”
A gralha olhou ofendida para ele.
Nunca se calava. Dizia que conhecia todos e fazia uma festa sempre que via um pássaro novo, com os perdigotos e as migalhas de comida a saltar em todas as direcções.
O pombo sentia vergonha alheia de tanta atenção atraída até que se afastou com uma patita atrás da outra e com a cabeça a baloiçar ao ritmo de uma música inexistente. Havia penas por todo o lado, tantas para a feira internacional do travesseiro a realizar-se para a semana.

Fechou os olhos, as rugas da cara indicavam uma enxaqueca iminente.
Havia metade de uma chamuça no chão, mas um pardal voou a rasar e levou-a. Coo, lamentou frustrado.
Viu o seu livro ignorado e sentiu-se miserável. Era um livro sobre a morte de um sem-abrigo; sobre a existência humana até à sua extinção; um diário pessoal ou um intercâmbio de consciências.
Bah! Ninguém vai ler estas balelas, quem escreve sobre a morte são os corvos nas histórias de terror e esses fazem-no bem!
“Pronto, está na hora do ir…”
Começou a despedir-se para a sala. O seu lugar não era ali, mas na rua, nas estátuas e nos postes, nos beirais ou nos monumentos antigos. A comer porcaria do chão, pão atirado por crianças curiosas e por velhos solitários.

O seu lugar era a defecar na história e a desgastá-la, em carros lavados e nas pessoas numa revolução darwinista.

Abriu as asas e pôs-se a voar. No alto, viu-os a todos.
Bah! São inteligentes e bem-parecidos, asseados e alimentados, mas enquanto viverem em jaulas com jornais para o cocó ou a fugir com medo do caçador, eu viverei livre e a cagar em tudo e em todos.” Literalmente, porque o vinho rasca caiu-lhe mal e a gralha estava mesmo em baixo dele.
“Toma lá que é para estares caladinha. Coo!”

Este texto foi originalmente escrito para a revista LER, corria o ano de 2012. Sai agora para a Internet para os pássaros lerem.

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