O Espelho

O que mais magoa não é a agulha da honestidade a perfurar a pele; as linhas que percorrem o corpo como cicatrizes; as marcas como sinais de nascença. Não, a honestidade não magoa.
A honestidade liberta, a honestidade é uma brisa nocturna e uma amante que depois de uma noite tórrida de amor se chega em concha e puxa o lençol.
Ficamos descobertos, nus; despidos de mentiras e omissões.
A honestidade não deixa nada coberto. É quando os corpos podem sentir a pele.
É a aparição de nós a nós mesmos. Uma revelação. E uma revolução da mente!

Expira, inspira e olha em volta, em silêncio.

Depois, as pessoas ficam nuas e envergonham-se – tarde demais. Levam a mão ao sexo para o esconder – tarde demais! Estão despidas das roupas que lhes davam cor, aquele estilo próprio, agora são uns tolos a correr como formigas com uma mão atrás e outra à frente.

Ri-se, olha para o canto e, como se estivesse a analisar algo, continua:

Tenho vontade de rir, mas estou triste e é isso que me magoa, não sei. Percebes?

Leva a mão em frente e pousa-a no vidro.

Quando te vi naquele dia já estavas nua – tarde demais. Estavas a chorar de vergonha e só querias um buraco; arrancaste o lençol para te enrolar, mas o lençol estava roto e a desfiar-se.
Ficaste em posição fetal e a tua voz diminuiu para um soluço. Estava a olhar para o teu corpo nu, a imagem queimada na minha memória e nunca a irei esquecer.
Desculpa, mas eu via-te gigante.
Forte como diamante e mais profunda do que um oceano. E agora vejo-te pequena, mole e és uma poça de água estagnada. Essa nova imagem jamais me sairá da memória e isso deixa-me… desconfortável.

E magoa-me mais por preferir a mentira; por preferir as tuas formas sedutoras, salientadas pelo lençol suado; por preferir ser enganado pelas sombras da imaginação e pela graça de quando inclinas a cabeça, escondendo um sorriso de conforto. De casa.
Agora mal posso molhar os pés. Portanto, perdoa-me se me afasto antes que evapores; não irei aguentar ver-te assim. Trespassa-me, mas se um dia chover e trovejar, estarei aqui para te ver a transbordar e serei o primeiro a afogar-me.
Porque tudo muda, assim como as pessoas e como as poças.
Há uma lição aqui, tenho quase a certeza…

E do canto da boca, nasce-lhe um sorriso.

Tenho de agradecer. Tu sabes, eu sei, e é suficiente que fique entre nós.
As paredes têm ouvidos, mas ganham humidade, bolor, rachas e apodrecem para cair em cima de nós com o tempo.
Vá, adeus, não fiques assim! Teremos sempre este lugar em comum: este limbo entre o sim e o não; entre uma palavra e a outra; entre o nascimento e a morte; entre o chão e as estrelas; entre o nada e o tudo daquela cama imperfeita onde fizemos a perfeição… Bem chega de metáforas… Prometo que te venho visitar, que nunca deixarei de olhar para ti, garanto-te.

E a sua boca forma um beijo e encosta os lábios ao vidro frio. Fixa o olhar em frente e sorri com vontade gananciosa.
Afasta-se da frente do espelho, sai do quarto e fecha a porta atrás de si.

O quarto ficou vazio e focamos-nos agora nesse espelho. Reparamos que apesar de o quarto estar vazio, o reflexo ainda ali permanece. E é lindo, e é triste e está sozinho. Porque um espelho só tem como companhia quem está do outro lado.
O reflexo devolve o olhar ao vazio do quarto, sorri fragilmente e senta-se na cama.
Silêncio, apenas o tic tac do momento. E ele continua lá, nu.

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