Sexo nos Transportes

Não nos podemos apaixonar em transportes públicos, não é correcto.
Não sabemos onde a pessoa esteve, de onde veio ou para onde vai. Não sabemos os seus planos de vida ou até mesmo de morte, se formos por aí.
Sentar ao lado da pessoa, o roçar dos tecidos e o toque acidental – desculpe – é tudo planeado.

Depois, depois é o encosto na viagem e os braços, as pernas que se esticam e que regressam ao lugar; que se cruzam e descruzam num nervoso estranho. É obsceno pensar sequer em contacto físico
Alguém pigarreia e olhamos de esguelha, vemos o reflexo da outra pessoa no vidro. Olhamos para fora, para a frente e para baixo, mas nunca para nós, os nossos olhos nunca se cruzam. Erguemos a cabeça em frente e engolimos em seco, nervosos e o pescoço estala, denunciando o milímetro que ousámos.
Nessa altura já somos voyeurs, curiosos por natureza e espectadores do decadente, tentamos espreitar o livro que lêem à frente e aguçamos o ouvido para a música de alguém. São estas as feromonas dos transportes que nos trespassam os sentidos, que repugnante.
Então, decidimos ser valentes. É agora: vamos estabelecer contacto, afinal já passámos os preliminares, agora vem o acto em si: o olá; o como te chamas;
O prazer.
Abrimos a boca seca e encaramos a pessoa que toca no interruptor. O autocarro pára e deixa-a sair na sua paragem.
Todos os dias! É esgotante, Viramos-mos para a janela a ignorar o mundo, respiramos para embaciar o vidro até que volta a sentar-se alguém ao nosso lado.
E recomeça.

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