Um Afastar Natural

Quando me disseste que não iríamos falar passado um mês, aceitei, é a vida.
Quando te disse que não iríamos falar passado um mês, abanaste a cabeça e apertaste a minha mão. Disseste que nunca me irias deixar.

Passou um mês, dois meses, tantos que perdi a conta. Voltei então àquele local, ao nosso local onde abanaste essa cabeça. À beira-rio ver os barcos a passar, as gaivotas a atacar as águas à procura do sustento.
Sentei-me no passeio a ver os barcos a chegar e outros a partir. Grupos de pessoas para lá e para cá a dizer bons-dias e, à tarde, até amanhã.
E foi assim que se passaram os meses sem nos falarmos.

O tempo arrefeceu. Sentado junto ao rio, aconchego-me na gola do casaco comprido, enrolo o cachecol ao pescoço e fico a ver os barcos. Com as mãos em concha na cara, sopro um sopro quente para as aquecer. A respiração sai como uma nuvem branca para o céu, com ela saem as nossas últimas conversas de Verão.
Nessa altura, passadas algumas horas da nossa conversa, perguntaste-me o porquê de ter dito aquilo e não te soube responder. É a vida, disse, é uma possibilidade, acrescentei. No entanto, aconteceu.
Afastámo-nos sem qualquer culpa ou esforço, acto tão natural que parecia premeditado, cada um seguiu a sua vida, sempre em frente.
Hoje tenho a resposta na ponta da língua, mas só me lembrei quando a expirei. Não gosto de ti, respirei, amei-te, mas não gostei de ti, respirei novamente.

Esfreguei-me numa pobre tentativa de me aquecer. O meu barco partiu e as gaivotas dispararam da água a barafustar. Um casal passou de mão dada a sorrir. Estava na estação perfeita. A estação perfeita para deixar o tempo correr.
Apertei o último botão do casaco, enfiei as mãos bem no fundo da algibeira e continuei a viagem até à minha margem.
“Sempre em frente para mais meses.”

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