Café

As pessoas não reparam em nada.
Entramos num café, contornamos as mesas limpas e postas, com a ementa, vasinhos para os guardanapos ou para o açúcar, adoçante ou paus de canela, e seguimos até ao primeiro lugar livre. E ignoramos que não há serviço de mesa.

O empregado reparou, mas fingiu que não. Tinha muito que fazer.
E o café estava à pinha naquela tarde, mas deveras acolhedor. As chávenas largas de boca aberta deixavam o aroma das bebidas escapar; um fio de fumo que se elevava acima das cabeças como balões de conversa. Havia todo o tipo de pessoas por ali: grupos de amigos, casais e aquele solitário de livro aberto ou caderno para rabiscar. As canecas desses arrefeciam de tanto esperar. Por ali, todos, mas todos traziam uma história.
E é então que nos dirigimos ao balcão:
“Era um cafézinho, se faz favor.”

E eis que ela chega.
Ela sim, repara em tudo e avança para o balcão com uma expressão tão séria como o tempo lá fora. Também pede um café e espera connosco.
Para os outros saem pingados, curtos, cariocas, negros, com cheirinho. Há quem peça com pressa para saírem de copos grandes. Andamos sempre a correr de um lado para o outro e é por isso que não reparamos no que está à nossa volta.
É uma das razões pela qual ainda preferimos moer o grão do café. Devagar, com atenção e com algum sofrimento. Da dor nasce o melhor café.
Quando finalmente nos deram as bebidas, ela encostou-se ao balcão e observou a sala e teve o mundo nos seus olhos. Um casal saiu imediatamente e tomámos logo o lugar.

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