Duas Ervilhas

Eles eram como duas ervilhas numa vagem.

A Sofia empurrou uma ervilha pelo prato alagado de molho do guisado. Tinha acabado tudo menos as ervilhas. Ela não tinha medo de nada, mas a ideia de colocar a pequena leguminosa na boca atrofiava com ela, eram o seu calcanhar de Aquiles.
Os movimentos peristálticos invertiam-se e traziam ao de cima tudo o que tinha descido há minutos.


Compreende-se quando uma criança diz que não gosta de vegetais. Não sabem tão bem como uma chicha suculenta ou docinhos, mas quando um adulto sente o mesmo, é inabitual. Um adulto sabe que, mesmo não gostando, tem de comer para dar o exemplo e para não desperdiçar comida e dinheiro. No entanto, a Sofia, nos seus vinte e tal anos, não conseguia pôr nem uma ervilha na boca.

E eles eram duas ervilhas numa vagem.

Espetou o garfo na pequena forma redonda e verde, levou-a à altura dos olhos e estudou-a. Sentia-se daquele tamanho: pequena e insignificante. Encostou-a à boca e assim que as suas papilas gustativas a sentiram, uma miríade de pensamentos sensaborões tomaram forma.
Somos aquilo que comemos, já dizia alguém e a Sofia tornou-se numa ervilha a cometer um acto de canibalismo.
Há mais peixe no mar, também diziam, mas o que ela via era mais ervilhas no prato e zero vontade para as fazer desaparecer. Mas caramba se não as ia comer, e comê-las seria a última coisa que ia fazer.

Mas eram duas ervilhas numa vagem.

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