Pelos Outros

O Jaime sentou-se ao balcão com cara de poucos amigos e chamou o empregado.
Quando se aproximou, pediu de imediato um moscatel. E para deixar a garrafa.

O homem encheu o copo e apertou a garrafa. Deixou-a com o Jaime e afastou-se para atender a dona Isaura que tinha pedido um pão-de-leite para o neto.
Quando ficaram sozinhos no café, já a garrafa ia a meio. A cara do Jaime estava inchada, mas mais calma. Os olhos suspiravam e transpiravam. Disse para o empregado:
“Sempre vi a masturbação como um brinde” começou o discurso insólito. “Levantamos o copo e brindamos a pensar na pessoa.”
O empregado continuou calado, mas a uma distância de segurança. O Jaime era o médico da aldeia e tinha-lhe respeito, mas o homem tinha um problema com a bebida. Todos sabiam-no.
“E não. E não me importo de beber acompanhado, mas quando estou com alguém, recuso a que me masturbem! Peço-lhe de tudo, mas não isso! Para isso, trabalho eu sozinho, porra!”
Entornou mais moscatel para o copo.

“Pode parecer estranho o que lhe digo, mas a masturbação é um gesto de compenetração solene. É como rezar. E quando rezamos, rezamos sozinhos.
Rezamos sozinhos pelos outros, mas sozinhos. Ninguém vai para a igreja ver os outros a rezar de mão dada. Não, cada um ajoelha-se, senta-se ou levanta-se; entrelaça os dedos e reza para si.
Quando acabam, cada um vai à sua vida.” Atirou o resto do líquido âmbar para dentro da boca.
“Porque estou a falar disto? Já me esqueci, homem. Já me esqueci.”
O empregado despejou o resto da garrafa no copo e atirou-a para o balde. Não fazia sentido pará-lo ou ia ser pior. No fundo, ele era um bom médico e o único por aquelas bandas.
“Havia alguém antes. Há muito tempo. Muito tempo…” Suspirou e bebeu o resto.
O empregado recolheu o copo e virou-se para o doutor:
“Afinal, senhor doutor: brindar ou rezar?”
O médico olhou-o com cara de caso e arregalado, mas fez-se luz.
“Depende, homem! Da disposição e do dia. Não sou religioso, mas gosto de beber. Mas o que interessa é a intenção e pensarmos em alguém. É tudo pelos outros, não é?”
“Se o diz, doutor.”
“Esta vida dá cabo de mim. Depois não querem que beba.”
Virou-se para sair e acenou ao empregado. Ele já sabia, para meter na conta; meter tudo na conta. E ele vinha pagar no final do mês. Religiosamente! Por isso aturava aquelas merdas de bêbado.

“Ámen” brindou o empregado quando se viu sozinho.

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