Toque

O homem é uma criatura de rotinas. É um autómato programado para caminhar em linha recta. Calha em esbarrar contra uma parede e continuará até a bateria se esgotar.

O X. abriu a porta. Entrou e fechou-a atrás de si com um clunque.
A mão direita ficou para trás, a acompanhar o regresso da maçaneta à sua posição de origem – podia ter-se esquecido de alguma coisa e ter de sair.
O cérebro enviou um sinal à mão para se abrir: um dedo de cada vez a largar a maçaneta. O X. ficou a observar as marcas na mão a desaparecerem até estar novamente completo. Depois, confirmou que a porta estava mesmo fechada.


Abriu as torneiras da banheira matematicamente: a da água quente até ao máximo e a da água fria apenas um quarto; engasgaram-se e ouviu-se o murmúrio da água a correr pela canalização antiga. Espirrou e caiu com a força desmesurada de uma cascata na superfície dura da cerâmica, salpicando o rebordo e começando a aquecer a casa de banho.

O X. avançou até ao espelho e, sem movimentos bruscos, agarrou o fundo da camisola sintética com as duas mãos e puxou-a para cima; prendeu-se nas orelhas e cobriu-lhe a cara: ficou às escuras. Não via nada, e nem se preocupava com isso. Puxou a camisola para trás, esticou-a sobre a face presa, forçando as formas da cara a emergirem pelo tecido; os contornos da carne e da prótese. Iniciou uma luta “corpo a corpo” com a roupa, mas libertou-se e deixou-a cair no chão de azulejos azuis estéreis.
Repetiu roboticamente o gesto com as calças do pijama; desatou os cordéis e puxou do elástico.
Abertas, arrastou-as pernas abaixo numa cacofonia de fricção metaliforme que se prolongou mais do que o necessário. Levantou uma perna, levantou a outra até ficar com as calças puxadas, mas ainda presas pelos pés que se estendiam da sua pessoa, uma sombra da noite anterior enrodilhada.
Sacodiu-as.
Tirou os boxers e deixou-os deslizar para cima das calças.
Por fim nu.

Recolheu a roupa e dobrou-a programaticamente: em primeiro lugar as calças que foram colocadas em cima do tampo da sanita; depois a camisola sobre as calças; a roupa interior foi atirada para um canto. Para alguém de fora, todos aqueles gestos iriam parecer estranhos ou quase autistas, mas para ele, tudo aquilo era normal.

Era necessário tomar a sua posição, calcular as acções e responder em conformidade. No entanto, nada disto tinha importância, a roupa iria toda para lavar, mas a razão daquela arrumação e ordem era algo que não podia contrariar, era como se estivesse programado para ter OCD, tudo tinha de estar ordenado e sequenciado.
Os boxers ficavam fora da equação esmerada porque é certo e sabido que não se mistura roupa interior suja com roupa normal; então ficavam para ali, esquecidos, sujos num canto e não na tampa da sanita com o resto. No entanto, e no final, a roupa acabava por ser lavada e no caos da máquina de lavar, programa 2, 30 °C com detergente de marca branca e meio copo de amaciador, igualmente de marca branca, tudo se iria misturar: roupa interior, roupa normal — a ordem deixaria de existir para dar lugar a uma revolução de 90 minutos.

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