O Último de Mim

Um trocadilho parvo com o recém lançado The Last of Us 2, mas uma verdade verdadeira: sou o último de mim; somos os últimos de nós e depois não há mais ninguém.

Tenho descurado o Per Nebulae; a revisão do manuscrito d’A Rapariga que Perdeu a Voz (gosto do título, que acham?), as análises de jogos e muita coisa que me dava um gozo imenso. Posso culpar o vírus que anda por aí, mas o problema está em mim, na minha cabeça. Não me consigo concentrar ou sentir coisas pelo que estou a fazer e para uma pessoa criativa, deixar de sentir é grave; estar dormente é esgotante, frustrante e traz ao de cima outras coisas menos agradáveis.

Cheguei a um ponto em que já não conseguia lidar mais. Até que me mandaram para casa de baixa com burnout. Já estando em casa, primeiro fui ao Centro e depois é que me mandaram para casa, Pronto!

Mas como? E porquê?

Gostava de escrever uma boa resposta, mas a verdade é que não sei, mas espero que as consultas que tive e estou a ter ajudem a responder. Ou a medicação…
Nos últimos dias, começava a trabalhar com faltas de ar que parecia que me estava a afogar como um peixe fora de água; tinha um ritmo cardíaco acelerado que alternava com fases em que congelava ao computador; era difícil concentrar-me, mas esforçava-me para avançar só mais um bocadinho até às pausas, almoço, hora de saída.
Seria do café? Deixei o café. O meu combustível passou a ser chá de camomila e valeriana.
Bebia muita água e andava nas calmas como recomenda Murakami num dos seus contos.

Era horrível porque isto era o que sentia fisicamente. E psicologicamente?
Se já era ansioso, esta não deu tréguas nestes dias com picos e picos constantes, onde a cabeça jamais descansava; remoía tudo e mais alguma coisa; tudo o que pudesse correr mal; conversas importantes; tentava antecipar problemas e soluções de coisas que provavelmente nem iriam acontecer! Depois aconteciam erros básicos que não deviam acontecer.
E porquê? Não sei…
Abafei a cabeça com podcasts, música para meditar, pop cheesy ou batidas pesadas para não me ouvir mais. Silenciei notificações e pop-ups porque cada um que surgia dava-me um mini ataque cardíaco. E nada resultava.
Basta! Tive de tomar uma decisão: não podia continuar mais assim ou seria mesmo o último de mim.

E isto coincidiu com o falecimento do actor Pedro Lima, que viu a doença mental a levar a melhor. Famosos e anónimos que sorriem, estão bem na vida, são pessoas porreiras e estáveis financeiramente e que, de repente, desaparecem.
Não consegui evitar de ler as dedicatórias, homenagens, gestos dos amigos e acabei por pensar: porra, deve ser fixe ter tanta gente a gostar de nós... E uma sirene soou na minha cabeça porque não posso ter este tipo de pensamentos… Mas como disse a uma amiga e repito:

Não te preocupes porque não me vou evaporar. Pelo menos até publicar o meu primeiro livro! E como sou preguiçoso, vai demorar.

Mas imaginem as vendas póstumas!
Agora a sério: decidi procurar ajuda, mudar o que podia e começar por aí. Eu adoro o meu trabalho, tem desafios e adrenalina brutais – pensem num boss de Bloodborne, onde é precisa alguma estratégia, paciência e destreza. Fi-lo durante anos com gosto, com colegas que estimo e num ambiente que me fez apanhar barcos e comboios na linha de Sintra para aprender, evoluir e atingir um nível de vida estável.
Só que nos últimos tempos, sentia que me estava a prejudicar e ia acabar por prejudicar os outros com as minhas faltas. Há um sentimento de culpa inerente a esta retirada estratégica e é por isso que ainda não consegui descansar em pleno, mas é um processo. 
Estou a tentar mudar o que posso e dentro das minhas possibilidades, mas vou tentar não ansiar por antecipação (nunca digam isto a alguém ansioso, por favor…)

O que acontece agora?

  • Retomei as sessões com a minha psicóloga fantástica que me deixam com mais paz de espírito e confiante;
  • Vou começar com um psiquiatra para tentar algo diferente;
  • Tenho feito mais exercício – obrigado, Ring Fit!
  • Ler, ler muito mais para treinar a concentração;
  • Vou namorando a escrita como agora para voltar a ganhar o gosto;
  • Vou variando em ocupações para criar uma rotina diferente;
  • Como não posso sair para visitar a família e passar dias longe da cidade, olhem: deito-me na mini varanda e faço de conta;
  • Por último, e porque é muito importante: tenho falado com quem tem ouvidos e olhos disponíveis para ler.
    Se forem como eu e não gostam de chatear, termos números de ajuda e portas abertas poderá não fazer muita diferença, mas haver quem pergunta como estamos, que nos mande memes, notícias, músicas ou convites, é tão acolhedor. Eu não sou pessoa de começar conversas, mas se as começam comigo, podem ter a certeza de que tenho imenso para falar de tudo e mais alguma coisa. Por isso, obrigado a todos e a todas!

Agora, também é verdade que não consigo esconder a minha tristeza. Cancelaram os arraiais e não vou comer sardinha, courato ou cachupa e isso é grave… Muito. Serve o meu relato da quebra e irei continuar a escrever para recordar mais tarde. Quanto a vocês, tratem-se bem, também.

Esta entrada foi escrita ao som de

 

Até breve!

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