Kingdom Hearts III | Series X

Chovia naquele Novembro, de 2002, quando meti o disco do primeiro Kingdom Hearts na velha PlayStation 2 – saí das aulas, passei pelo antigo salão da minha mãe e abriguei-me sob uma varanda até chegar à casa do meu colega Rui.
Entre testá-lo na casa dele a estar de castigo por más notas (e ter sido apanhado pelo meu pai), demorei a terminá-lo. E quando o terminei, e chorei com o Simple and Clean no fim, sabia que estava perante algo especial. Ainda mal podia acreditar que tinha acabado um jogo que combinava os meus mundos favoritos: Disney e Final Fantasy e que o descobri numa revista porque nem sonhava ter Internet.
As sequelas acompanharam outras boas memórias, como tentar encontrar um cabo RGB de pinos dourados para correr a versão americana do Kingdom Hearts II e fazer filas na Fnac para o depois comprar; jogar o Chain of Memories num Game Boy emprestado; jogar o Birth by Sleep no barco, enfim. A vida era normal, aborrecida e tão boa.
Até que se passaram dezoito anos. Se não chovia na rua, chovia na minha cara durante os últimos momentos do terceiro capítulo, que não o é, mas isso são outros quinhentos.
Para uma série que vive de simbologia, regressar ao mesmo quarto de criança para a terminar, foi qualquer coisa de enternecedor e mágico.

No entanto, terminei esta aventura a amar as últimas horas de Kingdom Hearts III, mas esgotado com 80% do jogo. Depois de um BBS e de um DDD (perdoem-me o excesso de siglas) excelentes e coesos, custou-me regressar ao ritmo do segundo jogo.
Nem parecia um capítulo “final”, mas um para encher chouriços entre jogos principais e só se distingue do KH II por não nos obrigar a regressar aos mundos Disney; fazemos tudo de seguida, sem uma divisão entre actos para respirar.
Então, Kingdom Hearts III abre nos últimos minutos do DDD, com a missão de despertarmos o poder do Sora no mundo do Hércules. No filme, o Herc perdeu e recuperou a divindade; yada yada yada, morais, sacrifício e tropes básicas na típica jornada do herói.
Esse mundo também funcionou como um bom tutorial às novas mecânicas, teve uns set pieces engraçados e culminou em bosses titânicos. E a julgar pela introdução, o resto teria de ser sempre a subir, certo, certo?

Errado. Achei o resto do jogo bastante inconsistente e filler, sem aquele sentido de urgência para recuperar os poderes e salvar o trio Aqua, Terra e Ven. A jornada do herói é mesmo isso: uma jornada e requer que o herói avance para o objectivo, aprendendo e evoluindo a cada desafio. Não senti isso.
Apesar de continuar a adorar o universo Disney, achei a presença de alguns mundos forçada e mal implementada na estória; à medida que os terminava, sentia-me a riscar itens de uma lista até poder avançar com a VERDADEIRA estória. E salvo umas gotas de enredo num deserto de engonhanço, gostei dos puzzles do mundo do Pooh. Estranho, não é?
Entre mais set pieces, cozinhar com o Remy, bailaricos em Tangled, piscadelas a Black Flag e a recriação do Let it Go, eu até que gostava de ter sido a mosca durante as conversas entre a Disney e o Nomura para entender o que raio aconteceu aqui. É muito estilo, mas pouca substância.
Quando terminamos os mundos Disney, o Sora puxa de um Deus Ex Machina, recupera os poderes, reúne os trios e partimos para o final. Como sou uma criança facilmente impressionável, consegui apreciar tudo o que aconteceu até aos créditos porque ou era épico ou dramático e eu tenho um fraco pelos dois.

Não confiava.

No final, o que interessa é que seja divertido e o KH III leva a taça dessa constante, mas o diabo que carregue as novas Gummi porque não me entendi com aquilo; acho que uma vez até fui à latrina e deixei aquilo andar sozinho. E o que posso dizer do combate que já não disse nos artigos anteriores?, que está mais refinado e frenético, que não só utiliza as mecânicas introduzidas nas prequelas, como introduz novas? Nuns deliciosos 60 frames por segundos, podemos trocar de Keyblades em combate e transformá-las em versões mais poderosas, invocar várias diversões temáticas dos parques Disney e ter mais companheiros na equipa. Agora, não sejam como eu que só activei os 60 frames no final do jogo…
Se me dissessem que ia estar a jogar com gráficos melhores do que os CG dos primeiros Kingdom Hearts, ter-me-ia rido, mas cá estamos com grandes mundos cheios de detalhe, personagens expressivas e com uma jogabilidade que é toda ela fogo de artifício com efeitos, luzes e muita fanfarra.
Também tenho a agradecer à série por me ter apresentado à voz de Utada Hikaru, que veio moldar os meus gostos de música pop japonesa, e à genialidade de Yoko Shimomura; Dearly Beloved deixa-me melancólico e nostálgico; os temas de Traverse e Twilight Town transmitem-me paz; The Other Promise é arrebatador e o tema das Destiny Island leva-me para um sítio bonito.
Que prazer seguir esta compositora noutros trabalhos. Olá, Xenoblade Chronicles!

Mais mistérios, uhhh!

Já podemos falar daquele Verum Rex, do Yozora e de todas as teorias do Quadratum? Ninguém me convence que o Nomura já se esqueceu do “seu” Versus XIII e que o futuro da série possa passar pelos mundos da Square, mais concretamente, pelos de Final Fantasy (abro excepção para o The World Ends with You). E eu digo para deixarem o homem fazer o que quiser, que alinho na insanidade com todos os meus cintos e fechos!
Ele já não precisa das rodinhas da Disney para pedalar no seu Kingdom Hearts e se já fez sentido, foi no primeiro jogo pela novidade e porque os mundos/temas estavam bem interligados com a estória original que era simples (e limpa, ah!). Com a crescente ambição e complexidade das sequelas, sacrificaram Final Fantasy em prol de mais secções direct-to-video dos filmes Disney, mesmo que não façam sentido no grande plano da intriga.

E é isto: acabei a aventura a que me propus no início deste ano, mas que começou em 2002, numa tarde encharcada, no Montijo. Admito que o final do remake do Final Fantasy VII teve muita força nesta missão porque era tão Kingdom Hearts, desde os diálogos ao pseudo intelectualismo. Joguem-no e digam-me qualquer coisa!
Entretanto, mudei de sites e proclamei a independência das minhas palavras; comprei um hoodie lindo de Kingdom Hearts e conheci pessoas com a mesma mentalidade e paixão pela série.
Não me recordo se choveu no final do III, mas sei que estava um frio daqueles; o gato estava em cima de mim e eu estava a ser sovado nos sentimentos e na nostalgia.
Agora é esperar que me ofereçam o Melody of Memory

Cá espero para ficar mais confuso!

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