Tell Me Why | Series X

Tell me why
Ain’t nothin’ but a heartache
Tell me why
Ain’t nothin’ but a mistake

Agora que já extravasei para a parvoíce, vamos lá falar a sério:
A vida real consegue ser aborrecida, daí que tempero com uma pitada de fantasia sempre que escrevo e Tell Me Why é um daqueles jogos que vem combinar estórias de vida real com contos de fada. A sério, se tiverem coragem para ler os contos dos pequenos goblins, quase que leram o jogo todo. E isso é bom!
A Dontnod foi bastante inteligente com esta mecânica, não só servia como prenúncio a alguns dos eventos do jogo, como também era essencial na resolução dos puzzles. Puzzles estes que podiam ser ignorados para recorrermos à força bruta, mas porquê?, se podíamos mergulhar naquele mundo e procurar por pistas na imaginação da família Ronan (Tyler, Alyson e Mary-Ann).

Bem, vamos falar do elefante na sala: a personagem transgénero.
Eu nunca tive A Conversa com os meus pais, nunca me ensinaram sobre sexualidade, diferentes orientações ou géneros, raças, credos etc e as aulas de Educação Moral ou de Formação Cívica foram uma anedota; tudo o que aprendi sobre mim e sobre o “outro” foi a ler, a ver e a jogar; o resto foi puxado pela minha curiosidade e por uma mente aberta e ignorante.
Não posso nem devo afirmar que este jogo representou bem o Tyler, mas achei que me abriu as portas a uma personagem interessante e com um penteado bem fixe que podia ter, se não tivesse rapado o meu cabelo. Na minha opinião, arrisco dizer que o único “problema” foi a facilidade com que os demais o aceitaram, mesmo os mais conservadores. Ouçam, é normal haver alguma resistência e/ou ignorância por parte dos mais velhos (do Restelo); resistência e ignorância que desaparecem com educação e normalização. Na minha opinião, jogos como Tell Me Why, Life Is Strange ou The Last of Us Part II, entre muitos e tantos outros, são necessários para normalizarem o diferente, em personagens, numa determinada narrativa do jogo – se o tema for um mundo pós-apocalíptico, as personagens existem como qualquer uma, terão de pegar numa arma e sobreviver até ao fim e é essa normalização, mesmo que virtual, que nos ensina que somos todos iguais, sangramos e recuperamos de maneira igual e temos bugs de maneira igual. O completo oposto de alguém ser preachy e fazer da sua diferença toda a sua personagem.
Já agora, agradeço aos jogos por me manterem essas portas abertas, aos Mass Effect e aos Dragon Age por me deixarem encarnar personagens femininas ou homossexuais porque “cansa ser homem hétero 24/7”; obrigado também aos filmes, às séries e à demais literatura. Mesmo na minha escrita criativa, tenho mais gozo em escrever personagens femininas; agora, se lhes faço justiça? Só vocês o poderão julgar.

Double Trouble

Tell Me Why aponta em várias direções, para além da personagem transgénero, com referências à cultura indígena Tlingit; às ligações quase sobrenaturais entre gémeos; aborda a culpa, o luto, o começar do zero e a fragilidade das memórias perante o trauma ou o avançar dos anos.
Muitos destes temas são-me pessoais e consegui identificar-me com ambas as personagens na maneira como sentem, recordam e lidam com a morte da mãe, com valentes doses de imaginação fértil e fantasia à mistura.
Não chorei como chorei no primeiro Life Is Strange, mas senti sentimentos acolhedores e de conforto; de revolta com algumas situações e de paz no final. Também me senti triste por terem deixado o passado (e uma casa) para trás, ao passo que eu continuo a lutar para manter a minha porque apesar das más memórias, também está cheia de boas.
Foi por isso que me demorei nos minutos finais, a deambular pela casa vazia que viu tanta coisa boa. Tal como eu na minha antiga casa, que quase que consigo ouvir as suas vozes e sentir as presenças de quem já partiu.

Memórias de um tempo distante

Okay, se leram até aqui, repararam que mal falei no jogo em si.
Se jogaram os Life Is Strange, da Dontnod, já sabem com o que contar: a jogabilidade à lá visual novel é mínima, andamos, interagimos com o cenário/pessoas e escolhemos os diálogos que poderão vir a alterar o rumo do jogo. O vai ou racha deste género de jogos é a estória e, para mim, foi vencedora. Não só me tocou a nível pessoal como não se demorou por serem apenas três episódios lançados num espaço de semanas.
Em debate com uma amiga que também o terminou, concordámos que o menos bom foi a introdução do primeiro episódio: ela achou que pintaram a mãe como uma má pessoa e eu pensava que nem era a mãe pela maneira como a tratavam. Mais, cadê as minhas bandas indie?!

Estando disponível no Game Pass, é um jogo obrigatório para quem gostar de boas estórias ou quiser limpar o palato de outros géneros.
De resto, suspiro: que desperdício de casa… Vivia ali fácil.

Sorry not sorry

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