Resident Evil Village | Series X

Só uma pergunta: para vocês, o que é Resident Evil? São os zombies, o terror, a acção, os puzzles, os enredos de série-B, os maus diálogos, as monstruosidades, as sequências de auto-destruição, tudo isto e mais além? Deverão ter uma ideia do que é um Resident Evil e será essa ideia a influenciar a vossa opinião sobre cada jogo.

Desde muito cedo que associo Resident Evil a zombies. Afinal, eu já adorava as criaturas desde o Night of the Living Dead (o de 90) e os meus contactos esporádicos e momentâneos com os vários jogos envolveram versões asiáticas importadas, as secções iniciais e zombies. Daí a associar os dois foi um passinho. Também prefiro o terror lento e claustrofóbico dos corredores apertados das mansões ou becos de cidade; os maus diálogos e as dobragens que acentuavam a estranheza e o desconforto; os visuais com cenários pre-renderizados, câmaras fixas e os controlos tanque que me atrapalhavam e deixavam em pânico. E isto é o meu lado saudosista a torcer o nariz às sequelas depois do Resident Evil 4 – amado por muitos, mas o literal “saltar o tubarão”. E a série atirou-nos com bastantes tubarões!
Com o soft reboot do VII, senti que a série recuperou o terror íntimo e muito do que descrevi acima. A Capcom sabe começar bem, mas também sabe desgraçar-se no final. Podia ser barato com uma analogia sexual entre duas pessoas inexperientes, mas a Capcom é bastante experiente e sabe o que faz, o que me deixa apreensivo quanto ao final desta nova trilogia.

Mas duas coisas: este Resident Evil Village também tem muito do que descrevi e aprecio, mas também tem muito do que me faz torcer o nariz. Aliás, três coisas: o marketing deste Village foi muito bom porque eu sabia pouco, ou nada, para além dos memes da Lady Dimitrescu – Sabem: os memes… Então, pensava que o jogo decorria entre a aldeia e o castelo e estava bastante contente com isso. Mas há mais!, muito mais…
A estória retoma três anos após o VII, com as nossas personagens (Ethan e Mia) a viverem no Leste Europeu; a ler; a cozinhar e a fazer coisas de gente normal com um filha bebé, a Rose. Até que são importunados por uma personagem que já podia estar reformada da série. Coisas acontecem e somos levados contra a nossa vontade para acordarmos de um acidente no meio da neve. Não demora até chegarmos à aldeia do título com uma missão: a de encontrar a nossa filha.
Durante a introdução caótica, também ficamos a saber de outras coisas: que a Rose está com uma tal de Mother Miranda e, para lá chegar, temos de passar pelos quatro filhos – os quatro mutantes que incluem a conhecida Dimitrescu e filhas; Heisenberg; Moreau e Beneviento – que correspondem às quatro secções que rodeiam a aldeia e que imprimem alguma variedade ao jogo.
E também ficamos a saber que o Ethan é um mau personagem principal. A nova personalidade do herói da trilogia é tão desfasada que os comentários e reacções não correspondem ao que está a acontecer. Sério, alguém que cale o homem, até o Harry Mason, em Silent Hill, é uma melhor personagem em busca da filhota. Ainda bem que não tem uma cara…

Oh… Olá!

De volta à aldeia. Esta é bonita, é lúgubre, é atmosférica, mas infelizmente é apenas um hub que podia ter sido melhor aproveitado.
Abre à medida que progredimos no jogo para apanhar tesouros ou caçar, mas gostaria de ter conhecido gradualmente outros sobreviventes para além dos que conhecemos numa das demos e que rapidamente saem de cena. Por um lado, consigo entender o raciocínio. Por outro, os jogos anteriores sempre tiveram outras personagens “humanas” – raras, bizarras, mas que serviam para cortar na tensão ou piorá-la. Eram toques fugazes de humanidade, do melhor e do pior dela.
Em Village, o destaque está é nos vilões. Alguns mais memoráveis e desenvolvidos do que outros, mas bastante extravagantes e excêntricos; com áreas de jogo e jogabilidades diferentes entre si. Se o castelo Dimitrescu pega no terror gótico de filmes antigos e no jogo do gato e do rato, a secção seguinte brinca ao terror psicológico para a próxima se focar num combate todo ele um puzzle saído do monstro do pântano ou de Innsmouth. E a última manda tudo ao ar e abraça o terror industrial e é quase um Call of Duty. As influências são claras, até o realizador de Frankenstein’s Army (Richard Raaphorst) teve algo a dizer. Aprecie-se, ou não, as diferentes tonalidades, o certo é que Village não é monótono e oferece algo de diferente para gostos diferentes. Eu gostei bem mais da primeira parte, mas sei de quem gostou mais da última. E isto é quase quase como agradar a gregos e a troianos. E como nem é muito longo, dá para repetir à vontade.

Olhem quem também regressou!

E como só posso falar por mim, só posso dizer que achei as horas finais demasiadas demasiado – com demasiada acção, demasiados tiros, demasiado a acontecer, demasiados flashforwards do último capítulo da trilogia ser igual ao Resident Evil 6…, mas dou por mim a ser hipócrita e a imaginar a evolução do RE Engine no último capítulo, mas a uma escala ainda maior, como uma cidade em primeira pessoa, mas melhor do que um shooter genérico. Já jogaram Condemned Criminal Origins? Um jogo de terror também na primeira pessoa que nos deixava usar armas de fogo ou o que estivesse à mão e eu queria ter pegado nas espadas que deixavam cair ou arriar nos Lycan com um pau. Por toda a liberdade de exploração que nos deram, sentia-me preso. Não me sentia vulnerável, apenas limitado e enfastiado quando tinha de enfrentar mais um inimigo esponja.
É possível que esteja desalinhado com a mentalidade da série porque, afinal, Resident Evil sempre foi Biohazard e isso implica vírus, experiências, mutantes, pew pew frenético, as tais sequências de auto-destruição, fogo de artificio, destruição massiva e uma pausa para one liners manhosos. E sim, Village tem muito disso e também tem homenagens às prequelas e quebra a quarta parede com piadas de rochedos.

Ahhh, I’ll buy it at a high price!

Então, Village mantém-se fiel às suas origens, inovando o necessário para atrair novos jogadores, manter os velhos e continuar a brincar na sua caixa de areia com 25 anos. E eu continuo na minha a dizer que o VII podia ter começado uma nova série de terror e continuar para este com vampiros e lobisomens, mas a marca vende e não é pouco…
No fim, Resident Evil Village é um bom jogo. Os Resident Evil que joguei são bons jogos; nenhum me fez dizer uau, que jogo maravilhoso! Se bem que o remake do primeiro está quase lá e o terceiro está bem bem perto, mas esse terá uma estória só sua quando meter as mãos no respetivo remake.
E foi o último jogo terminado nesta casa, o que lhe garante um lugar especial meu coração.

T’chau!

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