Starfall

Há uns valentes anos, a música Starfall inspirou-me a escrever uma pecita curtita que agora recupero para o Per Nebulae.

És uma estrela em queda.
A chover para a terra que sempre te invejou.
A terra que olhava para cima, embalava instrumentos e compunha músicas sobre ti.
Aproximas-te rápido; tão rápido que és apenas um rasgão no tempo – tal como as nossas vidas mortais são rasgões.

Durante gerações, nascemos e morremos onde nos quedamos enquanto brilhavas tão resplandecente; dia e noite, madrugada e crepúsculo. Era uma bênção nascer na tua vigília e morrer no teu manto. Uma boa e velha amiga.
Viste guerra e paz. Conhecias as pessoas melhor do que ninguém.
Mas agora cais, a rasgar o céu e o tempo. E as pessoas vivem sem repararem. Não digo que sejam mal-agradecidas pela tua luz e calor, mas ignoram a tua queda. E os poucos que repararam são loucos e riem-se muito. Pobre e miserável estrela.

Estás quase. O vento dilacera-te como lâminas velhas e sovam-te como gigantes. Sangras e choras e deixas um rasto de mágoa nos céus azuis.
O teu corpo celestial massivo; o teu rasto de sangue, lágrimas e poeira.
Acabou. Embates num silêncio ignorado.

“Olha, uma estrela cadente” apontou a pequena de mãos dadas com o pai.
“Deixa o teu desejo, então” disse-lhe com a indiferença de adulto.
“Desejo… desejo”
Shhhhhh
“Não mo digas ou não acontece.”

Então, a menina desejou em silêncio e a estrela que o tinha sido, brilhou uma última vez como um coraçãozito de criança.

“Já está” a pequena sorriu. “Pediste o teu, papá?”
“Ná” respondeu-lhe, “já te tenho a ti.”

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