Red Dead Redemption 2 | Series X

Está terminado e está.
Nunca fui muito apreciador do género western. O meu avô tinha umas cassetes e durante umas férias, com uma televisão e apenas a RTP, não resisti ao sono enquanto passava Maverick.
Mas a curiosidade aliada ao facto de gostar dos jogos da Rockstar levou-me ao primeiro Red Dead Redemption. Amei o jogo, chorei no final, repeti a dose noutra plataforma, vi outros a terminarem e fui à expansão dos zombies; aprendi a jogar Blackjack e entretive um casal na fila para a praia no Super Bock Super Rock em 2011, bons tempos!, e comecei a consumir alguns clássicos do género. Sou bastante influenciável nesse aspecto e repeti-o com vários jogos – olá, Ghost of Tsushima e maratona de Kurosawa!

Nisto, chega a sequela/prequela e o mais estranho é que não fiquei entusiasmado. As críticas aplaudiam o jogo, os prémios eram merecidos, o spoof de South Park foi delicioso, mas a minha vontade de investir num jogo de mundo aberto roçava o zero. Até que joguei Cyberpunk 2077. O que o rabo tem a ver com as calças? Nada. E tudo.
Quando fiquei desiludido, mas nada surpreendido, com o desempenho do Cyberpunk comecei a ver uns vídeos de comparação entre os dois jogos; o mundo, a IA, a imersão, as mecânicas etc e como um estúdio falhou após ter criado um dos melhores jogos de sempre, o The Witcher 3.
Aos poucos, fui dar comigo a ouvir a banda sonora e a mergulhar lentamente nas paisagens do country; aproveitei uma promoção e, finalmente, comprei o Red Dead Redemption 2!
(Nota: só termino e escrevo sobre o Cyberpunk quando estiver em condições).

Este jogo é bem injusto, deixem-me já dizê-lo. Quem viveu o primeiro jogo, sabe que a estória acompanha o John Marston na captura dos restantes membros do antigo gangue. Um objectivo simples, de um homem bom contra os homens maus, mas cuja linha se começa a diluir até ao final que me destruiu. E nesta prequela, conhecemos esse gangue quando ainda era próspero – quando ainda era uma família. A partir daqui, já adivinhamos o final: muita desta boa gente não vai chegar ao fim e a regra de ouro é: não apegar a ninguém. Parece fácil, mas será impossível, e começa bem com a nova personagem principal, Arthur Morgan.
Arthur é um homem estoico, fora-da-lei, mas outro homem bom e, embora não se ache, serão as nossas acções a ditar o seu compasso moral; antes de o controlarmos, já carrega uma pesada bagagem de vida, morte, amores e um péssimo sentido de orientação para onde ir. Para isso, e para o bem e para o mal, tem o Dutch, o carismático líder do gangue. E o “vilão” da sequela.

Sadie is best woman!

Quem diz as verdades não merece castigo: achei que o primeiro jogo teve uma melhor estória e um melhor arco narrativo definido, ao passo que RDR 2 teve dos melhores desenvolvimentos de personagens individuais.
Houve momentos em que passava de missão para missão sem saber bem qual era o endgame para além de mais um plano genial do Dutch, mas no decorrer destas missões, fiquei a conhecer cada elemento do bando e a querer passar mais tempo com eles – desde assaltos banais, escoltas, apanhar pielas, tratar do acampamento ou, simplesmente, relaxar em redor da fogueira. Era agradável; era uma simulação de slice of life no faroeste, e fazia questão de parar para admirar as suas rotinas como se fossem pessoas de carne e osso.
E isso trouxe outros problemas: para uma maior imersão, o jogo apostou no realismo e quando digo apostou no realismo, quero dizer que o mundo e a personagem é lenta; toma o seu tempo em qualquer acção; todas as acções têm a sua animação; todas as animações tomam o seu tempo. Um exemplo: se uma mesa tiver cinco latas de feijão, não podemos apanhar logo todas com um premir de botão, temos de repetir a acção para cada uma; idem para revistar os corpos etc etc etc… Se o cavalo estiver longe, não virá ter connosco, logo, teremos de ir a pé para o raio que nos parta. O peso deste realismo também me deu os bugs mais hilariantes como cavalos a darem mortais ou aves a voar para trás!
São picuinhices? São. Só que embora consiga apreciar o trabalho e a técnica por detrás disto tudo, tornou o jogo aborrecido – para mim!

Apenas…uau

O jogo não é mau! RDR 2 é fenomenal!, um dos melhores da última geração e um espanto numa Series X com uma boa televisão.
Havia momentos em que parecia estar a assistir a um filme de tão real que tudo me parecia, desde os cenários às pessoas; e o excelente trabalho dos actores tornava essa imersão tão fácil. Aos poucos, dei por mim a apreciar personagens que odiava do primeiro jogo e a odiar personagens que até tinha em conta. E quando nos abstraíamos do ruído da civilização, era um prazer abrandar (agora, dou-me por hipócrita) para admirar o nascer do Sol; as tempestades, as árvores a vergar ao vento, a fauna a simplesmente existir. Um cabaz cheio de coisinhas boas, atado com uma belíssima banda sonora.

Podemos concordar numa coisa? Ambos os jogos vivem muito de pequenos momentos: passar para o México ao som de José Gonzalez, tomar conta de uma quinta, montar uma casa com o pessoal ao som de country, apanhar uma cadela com o Lenny, conhecer, ajudar, perder as mais diversas e caricatas personagens e entender as mensagens não-tão-subtis sobre a nossa sociedade – ou deixar crescer o bigode. Sim, estes pequenos momentos. E é quase como vivo a minha vida: prestar atenção aos pequenos momentos e não ao grande arco narrativo que até poderá vir a desiludir.
Red Dead Redemption 2 não desiludiu, Teve os seus detalhes menos bons, as suas inconsistências e prolongou-se um nada a mais no final, mas caramba se não é um jogo memorável. Não chorei no final, mas sorri um sorriso agridoce porque já sei o que me espera no próximo jogo. O John continua no meu coração, mas o Arthur ganhou um canto especial.
Entende-se o porquê de a Rockstar demorar o seu tempo; não se pode despachar a qualidade. Se tivesse em modo discos pedidos, queria outro jogo do mesmo calibre, mas com a Sadie ou de piratas! Ou medieval, mas para isso arranjei o Kingdom Come: Deliverance para o revisitar anos depois.

There’s a good man within you, Arthur, but he is wrestling with a giant. And the giant, wins, time and again.