Para Surpresa de Poucos,

Descobri que o Google Maps permitia recuar no tempo.
Um nível extremo de vouyerismo, mas também com toques sentimentais porque houve quem encontrasse amigos ou familiares falecidos, agora imortalizados nos mapas da Google. Uns a regar o jardim, outros a enfeitar a casa para o Natal, em passeio, simplesmente a existirem.

Acto contínuo, decidi massacrar-me um pouco e ver se dava para recuar para antes de 2010, quando a minha mãe ainda era viva.
Infelizmente, a última foto da porta da minha casa é de janeiro de 2021 e, mais à frente, já dava para ver as filas de máscaras para entrarem na mercearia. Na circular atrás, já consegui recuar até 2009, mas as janelas estão fechadas. Ainda existem cortinas na cozinha e a varanda ainda tinha aqueles estores de plástico horrível. Seguinte.

Fui até ao salão da minha mãe.
Consegui recuar até 2009, mais precisamente até abril de 2009. E encontrei isto:

O salão dela, onde ela fazia o que gostava – umas vezes mais do que outras; que lutou para abrir e se esforçou para manter; onde ajudei contrariado porque preferia estar a casa, mas onde aprendi a tirar tintas, lavar cabelos e varrer para ficar com as gorjetas para ir para Lisboa; onde ia cortar o cabelo sempre que me apetecesse e onde não podia pintar porque não me deixava.
Também me fez sair de casa às tantas da noite com um taco de beisebol porque o alarme estava sem pilha e tocava ao calhas; em alturas de bailes de finalistas ou casórios, estava sempre cheio e a minha mãe tinha de chamar a vizinha para lhe dar uma mão, vizinha essa que ficou destroçada quando partiu. Quero acreditar que muitas das clientes de anos também o ficaram e só posso desejar ter metade das reacções quando for a minha vez.

Uns meses depois de ter fechado, ajudei a retirar aquele toldo azul porque os abutres não podiam esperar mais um bocado. E ainda hoje lá passo quando os pés me levam para aquele lado.
Desde então, que nunca vi aquilo aberto como antes. Nas raras vezes que alguém ocupa o espaço, é apenas uma amostra tímida do que era.
Sendo abril de 2009, não sei porque as portas estão fechadas quando as lojas do lado estão abertas.
Talvez estivesse de férias, na hora de almoço feito por mim ou pelo meu irmão, doente – já que nunca, mas nunca fazia gazeta. Ou fechou a porta pelo frio e está lá dentro sentada no sofá de cabedal (falso) negro a ler aquelas revistas cor-de-rosa.
Recuperei esse sofá e estou deitado nele a escrever este texto.

Honestamente, não sei o que esperava desta aventura.
Talvez apanhá-la à porta, à espera de trabalho; a entrar ou a sair; estaria preocupada com alguma coisa? Feliz? Cansada?
A expressão “éramos felizes e nem o sabemos” é quase um meme, mas tem uma gota de verdade. Éramos felizes, até podíamos saber, mas era uma felicidade dada como garantida. Posso dizer que hoje sou feliz, mas nunca o serei a cem porcento porque parte de mim não existe mais.
Não sei. Infelizmente, as próximas fotos são já de 2014 e o tempo passa num clique.

Gostava tanto, mas tanto que pudesse, de alguma forma, entrar naquela foto de 2009 e ir bater ao salão tal como estou agora ou ir até casa ou onde conseguisse e esperá-la.
Podíamos nem interagir, mas seria o suficiente.

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