Quem Gosta de Domingos?

Era o fim dos dias. A enorme esfera ardente irrompia pelos céus em direcção ao homem que odiava domingos.

*

Ele nunca foi muito fã dos últimos dias da semana. Ou dos primeiros se forem do tipo copo-meio-cheio. Não interessa, a estória é dele e ele não gosta de domingos. Davam-lhe ansiedade porque ou demoravam a passar ou eram demasiado rápidos até à segunda. Momentos congelados no tempo ou efémeros. Olhava para um domingo como quem olha para a água fria antes de mergulhar – aqueles segundos de hesitação antes do choque térmico. Ou um braço erguido com uma faca na mão, a ponderar se valeria mesmo a pena espetá-la e arruinar o resto da vida. Coisas perfeitamente normais.
Mas ele já tinha o dia planeado: este domingo seria o último que ia passar com vida.

E o plano começava por acordar sem despertador. Deixar o corpo descansar e acordar naturalmente e bem descansado. Se não acordasse, perfeito, saltava alguns passos. Se acordasse, o pequeno-almoço seria café, bacon, ovos estrelados e feijão com tomate porque seria demasiado triste comer só cereais de fibras com café. Depois, ia dar um jeito à casa para não dizerem que era desleixado. Passar um espanador no pó, uma aspiradela aos cantos e devolver tudo aos seus lugares – excepto as caixas amontadas na mesa da sala. Ia sair para almoçar ao sítio do costume, um tasco que continuava a existir, mesmo com uma data de restaurantes novos que insistiam abrir à sua volta. (In)felizmente, muitos não se aguentavam, mas o tasco resistia como a gordura nas bordas da sertã das bifanas.
Entrou no mesmo poiso, com o mesmo anfitrião colado ao balcão a olhar para a mesma televisão a passar os mesmos programas. Sentou-se na mesma mesa com (outra) toalha de papel e encontrou o mesmo velhote no canto a comer carapaus sozinho. Pediu carne de porco à alentejana e duas minis para empurrar; para sobremesa, doce da casa. Estava tudo óptimo e barato. Pagou os sete paus com uma nota de dez e deixou o resto escondido entre o recibo e o metal da travessazinha.
Tinha uma decisão a tomar: voltava para casa ou ia dar uma volta para desmoer. Foi com a segunda hipótese e seguiu pelo caminho mais longo até casa que metia para as traseiras dos prédios da zona. O chão estava cheio de papéis fugidos do papelão ou de cocó de cão. Pelo menos, esperava que fosse de cão. Mas nas suas voltas, já havia topado um magricela nervoso que descia a rua com um canito, olhava para todos os lados enquanto o cão fazia as necessidades e pisgava-se para não ser catado, como se fosse ele a baixar as calças para cometer o delito. O cão? Um rafeiro perfeitamente normal com focinho de aflito sempre que parava para se aliviar. Não havia sinal dos dois neste último domingo porque se os visse… provavelmente não iria dizer nada. Não se tinha tornado menos ansioso do pé para a mão; isso era coisa de demorar mais passos e ele já cá não estaria para os seguir.

Subiu a rua toda e, na ponta, entrou num café para a bica. Pediu um macieira para acompanhar e pagou a mais. A senhora agradeceu e regressou ao canal da três que passava uma festa qualquer numa terriola qualquer do seu país. A câmara rasava a multidão eufórica, mas não eram só velhos ali, também havia malta jovem a sacudir braços cheios de pulseiras e fitas coloridas. Para eles, as tardes dos canais generalistas eram outros festivais, se bem que mais parolos.
Agora, sim, ia regressar à sua casa. E zero sinal do magricela nervoso, mas com o frio invernal daquela tarde, o melhor era nem sair. Num domingo normal, estaria aninhado no sofá a consumir episódio atrás de episódio de uma série ou deitado no sofá a ouvir um audiolivro e a contar as rachas no tecto. Ele não lia, mas por causa da sua profissão, a única maneira de consumir literatura era através dos audiolivros e, mesmo em casa, percorria o corredor para lá e para cá para continuar a ouvir o narrador a narrar vidas mais interessantes; tratava das lides entre páginas faladas e adormecia com vozes que faziam o melhor para não serem monocórdicas.
Naquela tarde friorenta em particular, não ouvia nada para além dos seus pensamentos, e um em particular: que não entendia as pessoas que choravam pelo verão, ansiavam pelo verão e não concebiam a ideia de alguém preferir o inverno. Parece que ele preferia uma estação que não o liquefizesse a cada dia. Tinha para si que se perdia todos os verões para chegar ao outono mais diminuto e insignificante como se aquela última gota de suor escorresse personalidade ou recordações. E o Natal também estava aí. A época festiva era a única coisa que quase o demovia de acabar consigo. Talvez, hesitou, pudesse esperar umas semanas? Assim, ainda podia comer um docinho. Era uma possibilidade reconfortante, mas também um truque para adiar, ná, vai ser mesmo hoje.

*

Já em casa, recuperou o telemóvel na cómoda com zero chamadas, zero mensagens e zero pedidos de viagem na app. Até agora, tudo positivo. Fugiu para a sala e refastelou-se no sofá em frente à televisão, mas em vez de a ligar, encarou o reflexo no ecrã apagado: o único protagonista de uma série que já vira melhores temporadas até ser cancelada por quebra de audiências. A personagem olhava-o de volta com pequenos olhos desiludidos e curiosos, como se tentasse quebrar a quarta parede para sacudir o homem sentado à sua frente. Com a camisa folgada ao pescoço, calças justas que não eram para a sua idade, bem penteado e barbeado, o homem na sala parecia mesmo uma estrela de televisão; já o outro homem na televisão passava por um protagonista gasto, com lábios roídos e incapazes de manterem um sorriso.
Ligou a televisão e matou-o.

Com o volume abafado, voltou a atenção para as caixas desarrumadas na mesinha. Os nomes de cada embalagem podiam bem pertencer a planetas exóticos de ficção científica, com os seus pliaglis ou robaxin. Um dia, talvez pudéssemos voar até lá. Alguns medicamentos estavam por encetar, outros estavam fora do prazo, mas para o que era… Ah, e uísque. Estranho, pensou, vê-los ali fora da gaveta. Noutras alturas, a OCD obrigava a uma arrumação por acção: cabeça, estômago, cremes e assim por diante. Não agora, agora até sentia um nada de orgulho por não sentir a mínima vontade de os organizar.
Encheu um copo de uísque, mas encheu mesmo, não encheu como nos filmes só com dois dedos e uma pedrona de gelo. Aproximou os lábios do rebordo de vidro e beijou o âmbar para não derramar na roupa – credo, que horror! Em seguida, recuperou o telemóvel e continuou o The Travelling Cat Chronicles para ver se acabava antes de ir. Embalado pela voz daquele inglês simpático, deixou a mente divagar por outros tópicos: devia despir-se ou lavar-se? Forrar o sofá? E se vomitasse tudo e não resultasse? Devia ter leite perto? Ou seria carvão? Tantos e muitos, demasiados detalhes…
Cala-te!, ordenou à cabeça e àquele mimimi irritante da consciência que continuava a moer e a berrar atrás porta trancada nos confins da cabeça. Engoliu meio copo, lambeu os lábios luzentes e preparou-se para avançar pela primeira caixa, de onde tirou uma carteira que ia a meio. Separou as drageias brancas para o fundo da palma da mão e botou-as na boca, espalhando-as pelas bochechas como se fosse um esquilo.
Agora, era só empurrar com o resto do uísque. Só que o telemóvel tocou, interrompendo o audiolivro e o copo que ia a meio do caminho. Faltou aquele detalhe: meter o som no silêncio e quando ia fazer isso mesmo, reparou que ligavam de um número privado. Merda de publicidade, remoeu com os comprimidos a começarem a desfazer-se na boca. Se calhar, é trabalho… suspirou. Pronto, e deslizou o dedo para atender, mesmo sabendo de certezinha que seria publicidade quando os primeiros segundos foram de um absoluto silêncio.

“Sim?” chamou.
“Boa tarde, tenho o prazer de estar a falar com o senhor Albano Costa?” respondeu uma voz que parecia carregar um ligeiro sotaque nas palavras.
“É o próprio.”
“Fantástico! O nome é Jonas e gostaríamos de ter um minuto do seu tempo para responder a um inquérito de satisfação” anunciou demasiado efusivo e feliz para o momento.
“Inquérito de satisfação de quê?”
“No geral, se está satisfeito.”
“Estou a ver. Lamento, mas não estou interessado. Obrigado e boa tarde” respondeu o mais educadamente possível, dadas as circunstâncias.
“Albano, mas não está interessado em estar satisfeito, é isso?”
“Não foi isso que disse. Ouça, tenho mesmo de ir porque estou a trabalhar.”
“A um domingo? Entendemos porque está insatisfeito e contra mim falo. Albano, não lhe levamos muito tempo. Está a ajudar-nos e faremos o possível para ajudá-lo também” insistiu.

Mas após alguns segundos de hesitação, entre o desligar a chamada ou malhar no pobre coitado, o Albano cortou pela honestidade com um Ouça, estou a tentar matar-me frio, como se só agora tivesse reparado na janela da sala escancarada e no frio que o invadia. Apenas aquilo. E teria de ser o suficiente.
Mas aconteceu algo por qual não esperava, a outra voz cortou o silêncio com o seu sotaque e respondeu que entendia. Vitória.
“Sendo assim, o que temos a perder, não é verdade? Não é como se fosse a algum lado.
E com a deixa, o Albano viu-se desarmado e também aconteceu uma coisa que já não acontecia há muito tempo. Riu-se. Mas um senhor riso até sentir os abdominais de tal absurda reposta. E não teve outro remédio, se não deitar os comprimidos desfeitos cá para fora. E o outro continuou:
“Ainda bem que estamos bem dispostos, Albano. Não queremos mesmo ocupar muito do seu tempo ou estorvar, mas se esta é a sua última conversa, seria uma honra que fosse comigo.”
“Homem, você é incrível” conseguiu arrancar, ainda meio a rir. “Vamos a isto, então. Como se chama?”
“Jonas.”
“Sim, Jonas!” secou os olhos com as costas da mão e puxou o fôlego para si. Por um breve momento, as nuvens que se demoravam pela janela não eram tão cinzentas nem estavam tão carregadas.
“Obrigado. Já não ria assim há muito tempo” confessou.
“Ficamos felizes por ouvir isso, Albano. Queríamos só informar que esta chamada será gravada para efeitos de qualidade. Aceita?”
“Aceito, sim” pigarreou.
“Albano. Pedimos desculpa, mas já estamos a tratá-lo pelo nome. Não se importa?”
“Esteja à vontade, Jonas.”
“Obrigado, Albano. Vamos começar.”

Calou o audiolivro e empurrou o copo a meio, com o contorno dos lábios bem visível no vidro, contra os medicamentos espalhados. A sala estava agora muda de antecipação. Depois, escutou o pigarrear no outro lado da chamada e deixou-se afundar contra as almofadas, recuperando a memória de algum aconchego que podia bem ser da bebida ambiente.
“Albano, de zero a dez, onde zero é nada satisfeito e dez é bastante satisfeito, como classifica a sua satisfação?”
“No geral?”
“Exacto, no geral.”
“Três.”
“Muito bem. De zero a dez, onde zero é nada provável e dez é bastante provável, recomendaria a sua experiência a algum amigo e/ou familiar?” pergunto, enunciando a barra entre o e o ou.
“Três.”
“Novamente, três. Vamos agora colocar algumas questões rápidas. Responda com a primeira palavra que vier à cabeça. Preparado?”
“Preparado.”
“Primeira questão, do que gosta mais?”
“Nada” respondeu sem hesitar. Conduzir!, mas demasiado tarde…
“Próxima questão, e do que gosta menos?”
Estava prestes a responder um “Tu–” quando abrandou; parou; e recuou: adorava conduzir e conduzir era, talvez, das poucas coisas que o animava. Só que ultimamente, com os combustíveis a aumentar, tornava-se difícil sustentar este hobby caro e transportar pessoas começava a pesar na hora de interagir com elas. E o Albano bem que tentou substituir um vício por outro, como caminhar ou pedalar para ir variando, mas sentar-se ao volante era como rezar – ajustar os espelhos, sintonizar a estação para apanhar a sua música, descer o pedal para fazer o carro ronronar. Pequenos momentos só dele. E as cicatrizes não lhe doíam.
“Lembre-se: apenas uma palavra” cortou o Jonas, puxando-o de volta ao sofá.
Do que não gostava? “Domingos.” Fácil.
“Muito bem. Na sua opinião, de que forma podia ser melhor?”

Amor; dinheiro; saúde. Podia seguir os clichés como migalhas até ao sentido da vida ou escrever um num papelito e enfiá-lo numa cartola. O que saísse, era a resposta. Mas o problema das cartolas mágicas, é que às vezes saem de lá coelhos e o Albano viu-se a responder “Sentido” antes que conseguisse impedir a palavra de saltitar para lá da língua.
“Sentido” repetiu assertivo. Deu um gole que acabou com o resto do uísque. As caixas lá continuavam, amontoadas em construções lego para adultos.
“Muito bem, Albano. Estamos a ir bem e já não falta muito o deixarmos. A fase seguinte será a última.”
Nisto, “Jonas, não me leve a mal, mas está a perder tempo comigo. Daqui a umas horas já cá nem estou.”
“Não estamos a perder tempo nenhum, Albano. Trabalhamos oito horas, cinco dias por semana – às vezes, um pouco mais e nenhuma chamada foi tempo perdido.
Veja as coisas por este lado: se cá não estiver logo ou amanhã, o nosso trabalho foi feito na mesma. E garantimos que vai ter interesse na próxima fase, não se importa de aguardar um pouco para falarmos mais tarde?”
Do outro lado da linha, o Albano não conseguiu disfarçar um grunhido enfastiado. Estar aflitinho para ir à casa de banho e a conversa nunca mais acabar; ir para casa das compras, mas os pais prolongarem a conversa com aquele ou outro conhecido; terminar a sua existência…
“Albano? Podemos contar consigo?”
“Sim” seco.
“Ótimo. Não saia daí, voltamos já-já.”

E desapareceu, deixando para trás breves segundos mudos que foram assombrados pelos assobios de uma Don’t Worry, Be Happy. O ritmo descontraído sobrepunha-se à sua própria inquietação e os estalares roubavam-lhe as batidas do coração. Admitiu que havia uma certa verdade na voz quente de McFerrin e nas letras simples para não se preocupar e ser feliz. E estava. Desde que decidira terminar tudo que sentia uma espécie de esvaziar de balão. Livre e incrivelmente vazio de preocupações.
Ou porque estava a falar com alguém – mesmo que esse alguém apenas tivesse interesse comercial na sua pessoa. Ainda assim, era uma pessoa num cubículo que fazia aquilo dia sim, dia sim. O mínimo que podia fazer era fazer alguém feliz, deixou a brisa de um sorriso soprar. E quando batia o pezinho muito subtilmente, a voz do Jonas emergiu do fundo do túnel.
“Albano? Obrigado por ter aguardado.”
“Olá” devolveu-lhe.
“Estávamos a alinhavar os últimos detalhes e para o Albano não perder mais tempo, vamos directo ao assunto. Diga-nos, está à procura de novos desafios?
“Jonas” respondeu já com ela fisgada por saber o que vinha aí. “A minha vida já é um desafio, não me arranja uma mais simples?” e riu-se orgulhoso da graçola.
“Tem toda a razão, Albano. Má escolha de expressão. Que tal, oportunidade? Sempre é mais positivo, mais aventureiro!”
“Jonas, não quero mesmo ser rude, mas acha que me vou meter num esquema em pirâmide? Quanto dinheiro acha que consegue de um tipo morto?”, mas a outra voz amparou-o, como se habituada a retaliar aquelas investidas.
“Não há dinheiro envolvido, Albano. O único investimento é o tempo – o meu consigo, o seu comigo. Se ouvir o que temos para dizer, será o seu tempo durante muito, muito tempo. Perdoe a redundância.”
E o homem sentado ao sofá suspirou. Um daqueles suspiros de alguém contrariado ou quer passar-se por difícil, mas tem curiosidade no resto que aí vem.
“Tempo?”
“Tempo, Albano.”
“E o que preciso de fazer?”
“Essa é a melhor parte: vamos ver disso juntos. Albano, o que faz?”
“Sou motorista.”
“Táxi? Autocarro? Camiões?”
“Uber.”
“Hum, faz sentido” disse, tomando o seu tempo naquela curta confirmação.
“O quê?”
“A sua resposta: Sentido. Considera que a sua vida podia ser melhor se fizesse ou tivesse sentido. Entendo isso como objectivo, orientação, mapa, listas. Algo que saiba que tem de fazer ou onde chegar. E a profissão do Albano é levar pessoas do ponto A ao ponto B, que é quase, quase dar um certo sentido a essas pessoas.
De certa forma, o Albano é o deus dessas pessoas, a partir do momento em que entram no seu carro até saírem. Durante a viagem, as suas vidas estão nas suas mãos. E presumo, que as deixe em segurança. Acredita em Deus, Albano?
“Já não.”
“Nós aqui somos agnósticos.”
O outro homem não respondeu.
“Não sabemos em que acreditar. Acreditamos numa coisa, mas não lhe damos forma. Tanto quanto sabemos, Deus pode ser uma tigela de gelatina de morango. Sem ofensa para quem é crente e para as gelatinas, claro” zombou. “O que aconteceu para deixar de ser crente?”
“Escorreguei… A religião esteve sempre na minha família e fiz tudo o que queriam. Até andei nos escuteiros. Depois, na escola ensinam que nascemos, crescemos, reproduzimos e morremos. Depois, vêm as filosofias com pensamentos e tretas sobre o que é, de facto, viver e morrer. E tudo deixa de fazer sentido.”
“Hum, o Albano perdeu alguém?”
Após alguns segundos de vai-não vai, decidiu responder:
“Sim.”
“Lamentamos, Albano. Permita-nos a comparação: uma vida é como uma vela, está a ver? Acende-se assim que nascemos, muito pequenina e esperamos que cresça e continue a queimar durante uma vida e noite inteira. Lentamente, a queimar o pavio, a derreter a cera. E isto é o expectável, mas não podemos prever uma brisa ou uma rabanada de vento. Podemos proteger a vela, mas puf, tudo o que resta é o fumo, o cheiro a queimado e o calor efémero. Mas foi bom enquanto durou.”
“É uma merda. É o que é”, mas o Jonas só se riu antes de o lembrar que a chamada estava a ser monitorizada para efeitos de qualidade.
“O que me diz, Albano. Alinha?”
“Ainda estou a pensar, Jonas, mas fale-me de si. Quero ter a certeza de que falo com uma pessoa.”
“Somos um livro aberto, Albano.”
“Não, Jonas. Quero falar consigo.”
“Sou um livro aberto, então.”
“Como se chama mesmo?”
“Jonas Felgueiras Ferreira.”
O Albano sorriu, “Simples.”
“É. Os meus pais não queriam que fosse muito massacrado. Já bastava o Jonas.”
“Jonas, o que estaria a fazer se não estivesse aqui?”
“Não estaria aqui, Albano. Mas se estivesse aqui, seria mecânico.”
“Sozinho? Numa relação.”
“Feliz numa relação, Albano.”
“De onde é? Não estou a ver pelo sotaque.”
“Sou da Beira, Águeda. Conhece?”
“Nada…”
“Albano, tem de vir conhecer Águeda e provar os nossos pastéis.”
“Não sei… “ hesitou.
“Digo-lhe mais: se vier, o primeiro fica por minha conta.”
“Agradeço” e alcançou o copo que voltou a encher, agora só até meio. Com o copo a roçar os lábios, olhos cerrados, o Albano deixou escapar uma demorada e pesada expiração que embaciou o vidro. Bebeu. Depois, enunciou a pergunta que tinha vindo ao de cima:
“Jonas, em que lugar está nesta pirâmide?”
Desta vez, foi o outro homem a demorar e quando a sua voz retomou a chamada, foi isto que disse:
“Na mesma posição que o Albano: bem no topo” num tom sério, mas logo arrebitou a entoação, “eu sei que não faz sentido, mas veja as coisas assim: estar no topo é muito solitário. Passamos a vida a empilhar blocos de lego de experiências, amizades, amor, desilusões e sucessos… Bem, a viver, não é? E trepamos tudo e ficamos sozinhos. Vemos as pessoas que chegam e partem; e todas as coisas boas e más que puf ficam cada vez mais para baixo, mas caramba se não continuamos a subir!
E quando chegamos ao céu e olhamos para baixo, boa sorte em ver o chão, Albano!
“Mas dá para ver as paredes da pirâmide” interrompeu o outro com o copo da mão, encostado ao peito.
“Dá, sim. Mas até essas se vão afastando…  E a única maneira de vermos tudo de novo, é cair. O Albano sabe, vermos a vida a passar quando estamos para morrer?”
O Albano anuiu.
“Também recebi uma chamada. E a pessoa que ligou – uma senhora tão simpática disse-me isto e não me esqueci: passamos muito tempo à procura de trocos nas pedras da calçada em vez de prestarmos atenção ao caminho em frente. Portanto, a primeira coisa que fiz quando desliguei foi inclinar o pescoço para cima” confessou.
“Oh, o Sol! A Lua!” bradou teatralmente! “E tantas e tantas estrelas que não conseguia contar! E as outras pirâmides que furavam as nuvens com outras pessoas igualmente sós. Mas agora, ninguém estava sozinho porque podíamos falar: eu e outras pessoas. Eu e o Albano, está a ver?”

Ambos os homens riram-se. Um com o copo ainda encostado ao peito, a olhar de esguelha para a janela e para o que conseguia ver da rua. O outro? Algures por aí num cubículo.
“Perdoe se nos alongámos.”
“Não alongou, Jonas.”
“Está convencido?”
“Quase” respondeu, um nada a fazer-se de difícil, mas a verdade é que o discurso do Jonas
“Tome o seu tempo, Albano.”
“Está bem.”
“Se quiser nos acompanhar, estaremos consigo durante todo o processo.”
“Jonas, se aceitar, fico à espera desse pastel.
“Palavra de escuteiro que será seu.”
“Vamos a isso” finalmente aceitou quando terminou o copo e o bateu na mesa, empurrando algumas das caixas.
“Fantástico!” respondeu com um sorriso no sotaque. “Só temos de tratar de alguns detalhes e não o maçamos mais hoje. Está entusiasmado, Albano? É que nós estamos!”
“Vamos a ver…” pareceu divagar.
“Dois cêntimos pelos seus pensamentos, Albano.”
“Nada, estava a pensar aqui na vida.”
“Chegou a alguma conclusão?”
“Sim. Que isto foi tão ao calhas.”
“O Albano já não acredita em Deus, mas acredita em consciência? Vozinha interior, grilo falante?”
“Posso dizer que sim.”
“Boa. Não quero com isto dizer que fomos a sua consciência, mas também não queremos dizer que não fomos a sua consciência. Fomos bastante sortudos por ter atendido.
“Eu é que agradeço por terem ligado” acabou por desabafar.
“O prazer foi todo nosso. Foi bom tê-lo aí nesse lado.”
“Foi mesmo?”
“Não podemos mentir, Albano. Estes minutos ao telefone beneficiaram ambas as partes, o Albano continuou desse lado e nós continuamos aqui e esperamos que durante muito mais tempo.”
“Pois… Uma pessoa também tem de comer.”
“Também, Albano, mas não só… Antes de desligarmos, tem alguma observação sobre o nosso serviço?”
“Nada de nada, mas porra que eu já tinha feito as pazes com isto. Já tinha decidido tudo e vocês…”, mas não conseguiu terminar.
“Albano, no risco de sermos cliché: a probabilidade de o termos apanhado aqui é bem maior do que a probabilidade de o Albano ser o Albano. Pense em tudo pelo que passou até chegar até aqui. Desde a ciência do seu nascimento; como a sua voz se tornou na sua voz; o que o fez chorar pela primeira vez, ou rir, ou ter medo; porque foi pela esquerda e não pela direita. Todo o pequeno detalhe que a ciência não explica, talvez só a gelatina de morango, que o trouxe até este dia de inverno. Nós só seguimos uma lista de contactos, tivemos sorte.
Imagine a alternativa, que tinha ligado para outro número. Ainda me tinham chamado de todos os palavrões e mais alguns. O Albano não estaria aqui. Ou alguém batia a porta para pedir uma chávena de sal. As pessoas ainda fazem isso?”
“Nunca vi, Jonas.”
“Pena” suspirou.
“Albano, se não precisa de mais nada da nossa parte, ficamos por aqui. Pode ser?”
“Claro, Jonas. Tenha um bom dia.”
“Albano, desejamos o mesmo. Um excelente dia e continuação de muitos.
E desligaram a chamada. Tudo o que restou depois, foi um silêncio. Não era estranho nem opressivo nem desconfortável à espera de ser preenchido pelo ruído de fundo da televisão, mas um silêncio confortável onde não restava mais nada a dizer.

*

O Albano deixou cair o telemóvel nas almofadas do sofá e serviu-se de mais uísque para terminar o audiolivro que o aguardava no mesmo minuto, no mesmo segundo. A vida tinha aguardado por ele.
E quando o narrador deu por terminada a estória, o Albano lambeu o resto do álcool dos lábios e lançou-se do sofá para a cozinha, de onde regressou com um saco do lixo. Tudo o que estava em cima da mesa foi varrido para o fundo do saco preto e atado. Sentou-se, escolheu outro livro e acabou com a garrafa. Caiu redondo mesmo ali no sofá…
Acordou na manhã seguinte com a cabeça mais pesada. Cada movimento, cada gesto era levado a cabo com uma tremenda lentidão ou era o mundo que tinha acelerado. Continuou deitado nas almofadas, vestido com a mesma roupa do dia anterior, copo e garrafa vazios na mesa, saco do lixo cheio encostado. O dia tinha começado cinzento e iria continuar constante com os anteriores, com nuvens lentas a esconder o Sol e um frio de rachar pessoas ao meio.
Dormitou por algumas horas até ganhar coragem de ir ao banho. Água a ferver num corpo congelado, que lhe sabia pela vida.
Após o longo banho, o Albano encheu-se de casacos e pegou no carro até à farmácia mais próxima para devolver os comprimidos. Voltou apenas com uma caixa de paracetamol para a cabeça e com a jura de nunca mais beber assim. Conduzir era bom, crispar as mãos no volante era bom, descer o pé no acelerador era bom. Tudo era bom – até agora.
Acelerou no regresso, mas não voltou a casa. Quedou-se na rua, encostado ao carro, à procura de algo bem lá para cima no céu. Não havia sinal de nenhuma esfera ardente ou prenúncio do fim do mundo. O céu tinha aspecto de céu, com nuvens gordas de inverno que o Albano desejava não secretamente que continuassem ali para sempre. E isso era bom, porque o Albano queria continuar ali para sempre ou o máximo permitido. E decidiu que ia tentar desfrutar ao máximo desse plafond de dias. Mas primeiro, almoço que a barriga já dava horas.
Não quis variar e entrou no seu restaurante. Encontrou as mesmas pessoas de sempre, nas mesmas mesas, a verem os mesmos canais de televisão. Nada tinha mudado desde ontem, era como se aquela fatia de vida fosse um dos seus audiolivros interrompidos até que o Albano retomasse a estória.
Hoje era arroz de pato escondido, tinha anunciado o anfitrião da casa. Apontou-lhe a sua mesa, mas desta vez, quis sentar-se com o velhote que comia sempre sozinho. Aproximou-se, tapando-lhe a televisão e perguntou se a cadeira estava vazia, sabendo que estava sempre vazia.
De início, nenhum dos dois falou enquanto liam a ementa ou fingiam ler para não estarem com conversa se sala. Era tão fácil em criança!, olha o meu carrinho, queres brincar?, mas homens feitos? Nem que o inferno congelasse. Seria preciso que os planetas estivessem alinhados ou…
“Acho que vou para o arroz de pato” anunciou ao fechar a ementa, sem olhar para o homem, mas para o ar, fingindo interesse na televisão.
E o outro respondeu “acho que sim”. Aproximou-se, quase sussurrando, “pena que o pato nem vê-lo” riu. E a seguir o Albano. Estava feito.
Depois disso, o resto foi facílimo e a Sangria de tinto ajudou à conversa que durou o almoço inteiro. Sobremesa, outro doce da casa e café cheio. Quem olhasse na direcção da mesa do canto, veria dois homens animados, se bem que barulhentos. Satisfeitos e a falar de muita coisa, mas como a conversa não estava a ser gravada para efeitos de qualidade, ficou apenas entre os dois homens.

*

E o fim dos dias nunca chegou.

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