Que Arde

lit bonfire outdoors during nighttime

Ele odiava acampar com o pai. Hum, não, odiar era um pouco forte. Ele preferia ficar em casa! Portanto, era mais a preguiça e o comodismo. E não queria dormir na rua, comer enlatados e passar frio. O que queria mesmo era a consola, cama e comida quente.

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E ali estava ele: anos volvidos e com muito campismo no lombo. Sentado, sozinho no chão húmido e frio e inebriado de petricor a acompanhar a escalada do Sol – e o mundo a ser inundado de luz. Com apenas uma lata de cerveja meia enterrada na terra como companhia, varria o espaço à sua volta inquieto: escavava, separava a terra e devolvia-a em fiozinhos que escorriam por entre os dedos encardidos.
Para lá da pequena roda de pedras chamuscadas, o terreno corria sempre em frente em vários tons, com árvores de vários tamanhos e idades aqui e acolá como cercas da natureza. Mais ao longe, para lá do muro branco, ficava um antigo cemitério de aldeia. E a casa do homenzinho que tratava dele, mas que não vinha a calhar nesta história. Para trás?, uma tenda fechada.

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Sabia que era perigoso ficar sozinho na sua cabeça – havia memórias antigas e várias madrugadas como aquela, mas lembrava-se de uma das primeiras: uma madrugada húmida e fria por ter chovido durante a noite. Quando soube que tinha de ir acampar, passou horas a recitar um mantra que o colega lhe tinha ensinado para fazer chover. Este colega pregava mais petas do que um carpinteiro pregava num mês, e quando era apanhado, desculpava-se que afinal era só em França que havia ou acontecia ou tinha visto. Mas desta vez… desta vez, ele não tinha mentido! Tinha conseguido fazer chover!, mas por motivos óbvios, não o irei reproduzir nesta história. Ele tinha feito chover, e o pai levou-o a acampar na mesma.
Este pai, uma pessoa razoavelmente normal sem traços de grande destaque, cabelo a grisalhar pente rente, barba aparada, óculos de massa presos ao pescoço por uma fita desportiva de uma cadeia de lojas, tentava acender a fogueira, mas algo estava a falhar e até era embaraçoso para os dois. Ou a lenha estava húmida ou as pedrinhas só funcionavam nos filmes. E se não tiveres isqueiro?, como é que fazes? Ah, a primeira de várias lições de sobrevivência! Estas viagens eram um bode expiatório para reforçar a ligação entre pai e filho – e saírem da cidade! Às tantas, desiste e isso também é desculpa para outra lição: às vezes, é preciso improvisar para o mundo continuar a girar, meteu a mão ao bolso e fez aparecer um isqueiro. Clique: a chama nasce. Tanan, e a noite foi de oito a oitenta.

Havia calor, comida e o Bookends a tocar num leitor portátil, mas isso já era da responsabilidade de um pacote de pilhas recarregáveis. Era o duo preferido do pai, claro que estas viagens também serviam para cultivar o “bom gosto” musical do filho. Paul Simon e Art Garfunkel eram as suas primeiras jogadas e o Bookends era um álbum genial, mas o rapaz demorava a reconhecê-lo na sua juventude. No presente, algumas músicas tornaram-se marcadores de várias memórias, Oh, what a time it was…
Também havia uma mãe e uma esposa!, que agradecia o silêncio das ausências dos dois homens. No entanto, certificava-se de que não morriam à fome e ao frio e mandava-os embora bem aviados. Para aquela saída, preparou-lhes umas sandes reforçadas de carne, alface e tomate; ovos cozidos e bebidas adequadas à idade: uma cerveja para o pai; um sumo natural para o filho (anos depois, bebeu ali a sua primeira cerveja em frente à fogueira). Quando acabou com a merenda, pegou numa varita comprida que estava para ali e espetou-a no fogo que não gostou. Quase que derramou para fora da roda de pedras, mas recuou logo de imediato após a ameaça.

“Não faças isso” admoestou o pai. “Também gostavas que te chateassem assim?” Inclinou-se para as chamas e com a sua vara aconchegou a lenha num fogo confortável.
“Sabes que o fogo pode ser muita coisa” pôs a sua melhor voz de Mufasa, peito cheio, porque vinha aí discurso: “Pode destruir. Queimar tudo ou proteger e aquecer. Reage às pessoas. Se o tratares bem, não tens nada com que te preocupar. Se o ignorares ou picares…” Encolheu os ombros. “Bem, podes dizer adeus. E quem mexe no fogo acorda mijado, nunca ouviste?”
O rapaz fitou o pai, poço de curiosidades e de expressões populares e regressou ao calor da chama que dançava e saltava e crepitava; para as fagulhas no ar que fugiam como foguetes em miniatura, piscavam e desapareciam do mundo. Sentia o homem ansioso e um redemoinho à sua volta como se tivesse mais dentro de si para meter cá fora – boas lições não podem ficar a meio ou desaparecem no fumo…

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“Repara…” Puxou da vara para pescar uma chama que vigiou, “posso cuidar e alimentar esta chama; acender mais fogueiras para me aquecer e afastar o perigo. Ou posso ir ali atrás e atear fogo ao mato. E tudo isto desaparece. Pensa bem no que queres fazer e como queres fazer. E isto não é só para o fogo…” Soprou o foguinho e bebeu da sua cerveja, satisfeito com o final da retórica.
O filho só reteve o essencial: se fores boa pessoa, coisas boas acontecem. Se fores má pessoa, queimas-te. Naquele silêncio entre pai e filho, ficou com uma ligeira impressão de que estavam a ser observados, como se os animais tivessem curiosidade no que se estivesse a ser ensinado – o fogo era mesmo um tema de conversa universal para o Homem e para o Animal. Ele não tinha medo; sentia os olhos nas suas costas e escutava os arfares, os bateres de asas e o pisares do chão, mas aquela fogueira protegia-os numa redoma de luz acarinhada.
O álbum terminou pela quinta vez em loop. O velho já não tinha o peito inflado de palavras nem aquele ar de pensador; estava a descansar até à próxima fome. Já o filho estava com o nariz enfiado num livro, a não pensar mais naquilo. Uma década no futuro é que a conversa fez clique, mas mais vale tarde do que nunca, não é? Outra lição patrocinada pelo pai noutro acampamento.

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Outra memória; uma memória dentro de memórias: pai e filho estavam mais envelhecidos e o rapaz já apreciava estas escapadelas com o progenitor, tanto que já não queria fazer chover. Guardava o mantra para emergências e, surpreendentemente, continuava a funcionar. Ainda havia magia no mundo – fazer chover, fogo, entre outras coisas bonitas ou aterradoras. Já o acompanhava na cervejinha e também falava ou partilhava das suas lições. Ou tentava. Ainda havia tópicos impróprios para discutir com os pais, como namoradas e isso, mas o velho puxava por ele com as suas histórias e piadas de pai cheias de queijo embaraçoso. Oh não, o pai não tinha nenhum problema em falar da sua vida amorosa com a mãe e antes da mãe. Havia todo um outro e grande mundo antes de se conhecerem que não devia espantar (ou enojar) o filho, afinal os pais também foram adolescentes. E este facto também só clicou mais tarde, mas cada lição a seu tempo…

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O filho lá cedeu entre latas de cerveja e partilhas embaraçosas: havia uma rapariga que tinha conhecido nas praxes. Era extremamente linda, aventureira e ainda estavam no processo de se apaixonarem mentalmente. No primeiro mês em que se conheceram, estavam quase, mas quase com os lábios colados. E toda a memória da conversa do fogo incendiou-se dentro dele. Podiam acender aquela chama e aquecerem-se ou imolarem-se se fosse errado.
Ele gostava de admitir ter feito a coisa acertada, mas as hormonas falaram mais alto – beijaram-se, tiveram sexo e mantiveram uma relação estranha de quase obrigação e moralidade por terem-no feito. O fogo ardeu rápido, ardeu forte e queimou por ali a fora em duas frentes. A sorte deles; a sorte dele, é que ela também era muito inteligente e controlou bem o seu fogo. Acabaram e afastaram-se. Ele também gostava de admitir que foi tudo muito sereno e bonito, mas o mundo dele ficou carbonizado e as obras de reconstrução iriam ser longas. Ai, os amores adolescentes são tramados, o pai suspirou um pouco tocado, mas nostálgico…
Ele também gostava de dizer que ficaram amigos depois daquilo, mas ele mudou de curso e nunca mais a viu. Só tempos mais tarde nessas redes e com uma relação estável de dois anos. Eventualmente, lá surgiu outra chama, mais controlada e certa. Sentia-se quente e protegido.

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Saltou das memórias para o mundo real quando estava quase a clicar noutra lição. O Sol estava bem ali em cima, a olhar por ele, mas continuava um gelo na terra. Bebeu daquela cerveja morta para não desperdiçar, continuava a precisar de momentos assim: de uma cerveja na mão e da outra na terra para sentir o planeta a mexer. Tinha de se agarrar a alguma coisa porque era tudo tão rápido e vertiginoso. O fogo queima rápido e quando damos por ele, já as pessoas se extinguiram, ouviu o pai em tempos idos.
Continuaram a acampar durante anos e anos. Por mais ocupado que estivesse com a faculdade, trabalho, amigos e amores, havia dois dias sagrados para eles com cerveja, Bookends e comida enlatada. A mãe passou a ir mais vezes até se fartar de novo. Não passava sem o seu colchão ortopédico porque a idade não perdoava.
O filho casou, teve os seus filhos e trouxe-os consigo. O mais velho não ficou fã de deixar a cama, a consola e os amigos, mas a filha adorava. Eram três gerações a acampar até que, eventualmente, o avô passou a tocha ao filho, agora ele pai, e extinguiu-se. Voltaram a ser duas pessoas a acampar.

*

A filhota ainda dormia na tenda com meio mundo a acordar. E ela era o mundo dele. O pai quis esperar até ter a certeza de que tudo estava em ordem para quando ela despertasse. Mais tarde iam sentar-se e agarrar o chão com muita força para não perderem o importante. Sentia uma lição a subir do fundo do estômago, aquela ansiedade quente de quem tem um segredo importante para partilhar em redor de uma fogueira.
Terminou a cerveja quando sentiu movimento lá atrás na tenda. Levantou-se, passou pela roda de pedras chamuscadas de negro e avançou para a porta. Ajoelhou-se e correu o fecho. Lá dentro estava a pequena chama, uma menina enfiada no saco-cama, a cabeça ensonada a espreitar, cabelos loiros de labaredas como os da mãe e uma cara que implorava por mais soninho. Não saía nada ao pai que tinha a cara chapada do avô. Rastejou para junto da pequena e aninhou-se, cara a cara. Beijou-lhe a testa quentinha. Ninguém disse nada durante um bom bocado, mas quando os olhos da filha voltaram a cerrar, ele pôs o seu melhor ar de Mufasa e disse-lhe bem sério:
“Hoje vou ensinar-te a chover.”
E mergulharam naquela memória distante de liceu, onde um colega francês de rabo-de-cavalo e sotaque engraçado lhe contou como se fazia chover. Como é óbvio, não posso escrever aqui ou perde a magia…